domingo, 15 de novembro de 2015

Matutando #12 - Sobre aborto e tals


[TW: Estupro, violência, pobreza, suicídio, depressão, abandono, morte]

Olá, pessoas lindas, tudo bom?

Talvez vocês tenham reparado que mudei o logo dessa coluna. Bom, fiz isso por motivos de que eu quis mesmo, tava enjoada do antigo e gosto de hashtags. 

Ultimamente, o feminismo está em alta nas redes sociais. Desde que o tema da redação do ENEM desse ano foi a persistência da violência contra a mulher no Brasil, parece que uma luzinha se acendeu na cabeça de quem até então ignorava essa questão. Muita gente diferente tem muitas coisas a dizer sobre o feminismo e suas pautas.

Eu sou feminista. Sou contra a misandria e contra as TERFS (as feministas que acham que mulheres trans não são mulheres de verdade e que homens trans devem ser "recuperados"). Eu sou a favor do feminismo que engloba todas as mulheres: de todas as cores, ricas ou pobres, gordas ou magras, portadoras de deficiência física/mental, trans ou cis,  de qualquer religião, sem religião, heterossexuais, homossexuais ou de qualquer outra sexualidade. Sou a favor de todas as mulheres. 

Mas, sinceramente, não vim aqui falar sobre feminismo (por enquanto, pretendo mais para a frente). Hoje eu quero recapitular uma conversa que tive com a minha mãe há pouco mais de um ano sobre aborto.


Não lembro o dia exato que tive essa conversa, mas com certeza faz mais de um ano. Eu estava com meus pais, jantando, estávamos conversando sobre algo que sinceramente não lembro o que era e de repente o assunto aborto veio à tona. Não costumo - aliás, evito - discutir questões sociais e políticas com meus pais, pois além de eles nunca ouvirem o que eu tenho a dizer já assumem que estou errada e sou muito extremista. Okay. Enfim, nesse dia eu decidi falar que era a favor do aborto em qualquer caso e minha mãe não gostou nada disso.

Então, eu disse:

- Eu tenho 17 anos, trabalho, estudo, faço curso técnico, tenho muitas coisas para fazer, tenho meus sonhos, ainda pretendo entrar na faculdade, ser professora, escrever meus livros. Você acha justo que, se eu engravidasse semana que vem, eu fosse obrigada a desistir de todos os meus sonhos e ambições para cuidar de um bebê que eu não planejei, sendo muito jovem, sem formação acadêmica e trabalhando com vocês?

Tudo isso no meu contexto do ano passado. Bem louco como o discurso seria diferente agora. Minha mãe respondeu:

- Sim! Por que a criança não teria culpa por você não ter se prevenido na hora de ter relações sexuais.

Isso me chocou. Muito. Ter minha mãe falando na minha cara que eu deveria deixar minha vida de lado para cuidar de uma criança. Hoje eu tenho argumentos para falar em como minha mãe estava errada em dizer algo assim.

Hoje, tenho 18 anos. Trabalho com meus pais, cinco horas por dia, faço faculdade de Letras em outra cidade, vou para lá de ônibus. Tenho muitos trabalhos para fazer (aliás, devia estar fazendo um plano de aula enquanto escrevo esse post. Detalhes) e muitas provas para estudar. Ainda tento escrever meus livros. Tenho esse blog que mantenho muito mal, pois quase nunca consigo realmente escrever aqui. 

E se eu engravidasse semana que vem?


(Vamos ignorar o fato de que essa criança imaginária teria um pai, por que nem sei imaginar o quanto isso ia desregular minha vida).

Eu não conseguiria conciliar isso tudo que está dois parágrafos acima com um filho. Não conseguiria trabalhar com meus pais, pois não teria ninguém para cuidar do meu filho durante essas horas. Até conseguiria fazer faculdade, mas meus pais teriam que cuidar do meu filho durante a noite, o que eu não acho justo. Imagine eu, grávida, andando meia hora para ir e outra meia hora para voltar de outra cidade de ônibus, todos os dias. Imagine eu, que sou extremamente privilegiada perto de outras mulheres que poderiam passar pela mesma situação, tendo que desistir da minha faculdade para poder cuidar do meu filho. Imagine eu, com 18 anos, tendo que cuidar de uma criança, sendo que eu ainda me considero uma.

Eu sempre parto do seguinte princípio: se eu, ou qualquer menina mais jovem que eu (como há casos de garotas que engravidam com 13, 14 anos) fossemos a um orfanato e disséssemos que queríamos adotar uma criança, um bebê, será que nós poderíamos? Será que o responsável por esse orfanato deixaria uma criança de 13 ou 18 anos adotar outra criança? Não? Então por que obrigar uma criança de 13 ou 18 anos a ter um filho completamente não planejado, não importa se foi por estupro ou descuido? Por que obrigar uma criança a ser responsável por outra criança?

Agora imagine que estamos falando de uma mulher de, sei lá, 30 anos, casada, com emprego fixo, excelente salário e disponibilidade de tempo, mas que não quer ter filhos. Se ela engravidasse, por um descuido, seria justo existir uma LEI que LEGISLA dentro do CORPO DELA e que diz que ela vai ser OBRIGADA a ter essa criança que ela NÃO QUER por que ALGUÉM que não tem NADA a ver com isso acha que aborto é assassinato?

Eu acho que não é justo.


Agora imagine que estamos falando de uma mulher de 30 anos, solteira, pobre, desempregada, nenhuma formação, vive de pequenos bicos e de dinheiro que consegue de programas sociais. Ela não quer ter filhos. Essa mulher engravida, por descuido. O pai não vai assumir a criança. Essa mulher vive de aluguel, numa favela, não tem dinheiro para cuidados básicos que esse bebê iria precisar - roupas, fraldas, remédios, alimentos, brinquedos, etc - e não conseguiria arranjar nenhum emprego tendo um filho tão pequeno para cuidar e não há ninguém que possa ajudá-la. É justo existir uma LEI que LEGISLA dentro do CORPO DELA e que diz que ela vai ser OBRIGADA a ter essa criança que ela NÃO QUER por que ALGUÉM que não tem NADA a ver com isso acha que aborto é assassinato?

Eu poderia citar mil diferentes casos de diferentes mulheres que não querem/não teriam condições de cuidar de uma criança e em como em todos esse mil casos o aborto seria uma possibilidade válida e que alguém negando isso é um absurdo. A questão é que muita gente é a favor do aborto em casos de estupro e de má formação do bebê ou risco de vida imediato para a mãe (coisas que deve-se levar em contar), mas ainda acham um absurdo que uma mulher queira abortar pelo fato de o bebê não ter sido planejado, por ter sido concebido num momento de descuido. Afinal, qual a dificuldade de se prevenir, tomar anticoncepcional, usar preservativos?

O aborto é o único caso de saúde pública (sim) que é julgado pela forma em que a mulher entrou nessa situação (engravidou). Você não vai obrigar uma pessoa que quebrou o braço caindo da escada a ficar com o braço quebrado para sempre só por que ela poderia ter segurado no corrimão. Você não vai negar transfusão de sangue para uma pessoa que cortou os pulsos e foi socorrida pela família só por que essa pessoa podia ter escolhido não tentar o suicídio. Você não vai deixar de operar uma pessoa que teve metástase no câncer avançado só por que ela poderia ter feito o exame anos mais cedo e descoberto o tumor antes que ele se espalhasse. Você não vai deixar uma pessoa que fumou a vida inteira e precisa de um pulmão novo morrer só por que ela poderia ter escolhido não fumar.

Por que você vai obrigar uma mulher a ter um filho que ela não quer ou não pode ter, coisa que vai mudar completamente sua vida, só por que ela infelizmente engravidou por um descuido?


Acho que já falei demais... Vou finalizar o texto com uma pequena reflexão interna. Independente de questões financeiras e afins, ter um filho abala extremamente a vida de uma pessoa, seja homem ou mulher. Eu não teria condições de ter um filho agora, nesse momento, nesse instante. Eu, com todos os meus problemas psicológicos, acho que seria um erro expor uma criança a uma mãe com tendências suicidas, constantes ataques do pânico, crises longas de depressão e ansiedade. Acho que seria extremamente prejudicial para uma criança ser criada num ambiente em que a mãe teve que desistir de sua vida para poder cuidar dela. Não gostaria de saber que eu fui, desde meu concebimento, um enorme contratempo na vida da minha mãe. 

Acho que seria um erro obrigar uma criança a nascer numa família extremamente pobre que, mesmo com a melhor das intenções, não será capaz de prover alimentos, saúde e educação para essa criança. É um erro obrigar uma criança a nascer num ambiente hostil, num ambiente em que ela não será feliz ou saudável. E não me venha falar em colocar a criança num orfanato se você nunca visitou um.

Não estou dizendo que um bebê não planejado não possa ser bem recebido, e não acho errado que uma mulher deixe seu emprego ou faculdade ou qualquer outra coisa para poder cuidar de uma criança. Isso é extremamente nobre. Com esse texto, quero deixar claro que a mulher deve escolher se quer ou não ter o filho que está carregando, independente desse bebê ser fruto de estupro ou não, independente de ela ter ou não condições financeiras, físicas ou psicológicas para ter um filho. 

Sou a favor da escolha. Sou a favor da mulher decidir qual o seu destino. Uma lei criada por uma pessoa que não vive sua vida não pode decidir isso por você.

Um deputado não pode te proibir de tomar a pílula do dia seguinte. Um deputado não pode te impedir de ter um aborto legal e seguro. Um deputado não pode decidir o que você faz ou deixa de fazer na sua vida baseado nas crenças pessoas dele.

Você devia ter liberdade de escolha. Eu devia ter liberdade de escolha.

Por que não temos?

Leituras complementares (reportagens, artigos científicos, números, dados, pesquisas e depoimentos):

































P.S.: Se você for me xingar, por favor, nem comente. Se não concorda com meu post, acha que algum link não é confiável ou tem uma fonte mais confiável que diz algo diferente do que eu citei, sinta-se livre para compartilhar comigo. Opiniões divergentes são bem vindas. Vamos conversar, vamos debater. Minha visão não é absoluta.

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