quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Ceifador, de Neal Shusterman

O CeifadorAutor: Neal Shusterman
Título Original: Scythe
Editora: Seguinte
É bom?: ★★★★ 
Páginas: 448

Sinopse: Primeiro mandamento: matarás. A humanidade venceu todas as barreiras: fome, doenças, guerras, miséria... Até mesmo a morte. Agora os ceifadores são os únicos que podem pôr fim a uma vida, impedindo que o crescimento populacional vá além do limite e a Terra deixe de comportar a população por toda a eternidade. Citra e Rowan são adolescentes escolhidos como aprendizes de ceifador - papel que nenhum dos dois quer desempenhar. Para receberem o anel e o manto da Ceifa, os adolescentes precisam dominar a arte da coleta, ou seja, precisam aprender a matar. Porém, se falharem em sua missão ou se a cumplicidade no treinamento se tornar algo mais, podem colocar a própria vida em risco.





Prefiro ter uma consciência livre a ter uma consciência sã.

Eu sinceramente não esperava gostar tanto assim desse livro.

O Ceifador é um livro diferente dos livros para jovens adultos de ficção-científica atuais pois não se passa numa distopia, mas sim numa utopia: no futuro não existem mais doenças ou mortes, todas as pessoas são imunes a todas as doenças e, mesmo se alguém for atropelado ou cair de um prédio, essa pessoa logo é revivida. O único jeito de realmente matar alguém nesse mundo é incendiá-la, fazendo com que seu corpo se desintegre a ponto de não poder mais se regenerar – mas basta dizer que isso literalmente nunca acontece nesse mundo perfeito.

A população mundial agora vive de forma sustentável, o clima é controlado, não há corrupção e todas as pessoas vivem de forma confortável. A Nimbo-Cúmulo, uma Inteligência Artificial perfeita, administra tudo e ajuda todos que precisam dela. Não é como os vilões robóticos que vemos em Asimov: é realmente uma AI benevolente. Acontece que ela não tem jurisdição sobre absolutamente tudo no mundo: os ceifadores são intocáveis. Mas quem são eles?

Os Ceifadores fazem parte de uma organização, a Ceifa, que tem como objetivo selecionar de forma humana e compassiva pessoas reais para serem mortas de forma definitiva para fins de controle populacional. Há várias regras a serem seguidas e os ceifadores levam seu trabalho a sério – pelo menos a maioria deles. Mesmo sendo necessários, os ceifadores são temidos pelas pessoas. Compreensivelmente, uma vez que suas vítimas são supostamente aleatórias e qualquer um pode ser coletado a qualquer momento.

A história começa quando dois jovens, Citra Terranova e Rowan Damisch, são escolhidos pelo ceifador Faraday para se tornarem aprendizes de ceifador. Isso não é usual, pois um ceifador frequentemente escolhe apenas um aprendiz, isso quando decide ensinar alguém. É claro que apenas um dos protagonistas irá se tornar ceifador ao final do treinamento e, ao mesmo tempo em que nenhum dos dois quer ter que carregar o fardo de matar pessoas, nenhum está disposto a perder essa competição e voltar para casa com a estigma dos ceifadores.

Sinceramente, eu odiei o começo do livro. Ele é dividido em 5 partes e a primeira parte (primeiras 70 páginas) foi tão tediosa e mal explicada que eu estava à beira de abandonar a leitura. Se você estiver passando pela mesma coisa, te digo: NÃO FAÇA ISSO. O livro fica melhor a partir da segunda parte, e não fica só um pouquinho melhor, mas MUITO MAIS MELHOR DE BOM.

Esse livro tem quase 500 páginas mas eu me peguei lendo mais da metade dele em um único dia, de tanto que eu estava envolvida na trama. Eu simplesmente não conseguia largar o livro: eu precisava saber o que aconteceria. Do meio para o final do livro várias coisas dobre o universo são reveladas e muitos plot twists acontecem, te deixando de boca aberta. Mesmo nas últimas dez páginas do livro, quando você pensa que tudo se resolveu, BLAM, mais plot twists! Ah, sem contar que eu adorei os vilões. Mesmo eles sendo bem cruéis eu achei a reivindicação deles válida e gostei de como o autor explorou a dualidade de ideias dos ceifadores em seus protagonistas.

O livro tem vários momentos filosóficos nos quais o autor debate sobre vida e morte, imortalidade e sobre nosso desejo de utopia. O livro não é uma distopia disfarçada de utopia (como Divergente, por exemplo), mas uma verdadeira utopia na qual um conflito tem início. O livro me fez pensar bastante sobre esse futuro utópico e me encontrei questionando vários dos apontamentos do autor e até “melhorando-os” em minha cabeça.
A partir daqui podem haver alguns spoilers até a metade do livro. NÃO vou dar spoilers a partir da parte três, então fique tranquilo que nada muito revelador será dito. Mas você está avisado.

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Alguns questionamentos:

01)   Os ceifadores tiram a vida das pessoas baseando-se em estatísticas da era mortal. Então (chutando números) se 3% de todas as pessoas que nadam 5 vezes por semana morriam afogadas, os ceifadores matavam 3% das pessoas que atualmente nadam 5 vezes por semana. Okay. Mas se a gente transfere essa estatística para outras coisas ela se torna bastante cruel. Por exemplo, a média de vida de uma pessoa transexual no Brasil é de 34 anos. Chutando números, imagina se 30% dos transexuais são assassinados antes dos 40. Os ceifadores iriam atrás de transexuais por causa disso? A mesma coisa vale para homens, que são assassinados mais violentamente que mulheres, ou motoristas de carro que simplesmente tem mais chances de morrer em acidente de trânsito. Sei que há pessoas que atualmente não dirigem por medo de sofrer acidentes... Parece que nem nesse futuro em que ninguém morre elas estariam a salvo.

02)   Eu realmente não gostei do romance que surgiu entre os protagonistas. Apesar de ter sido pouco explorado – ainda bem que o livro não perdeu foco na ação para dar atenção a romance! – eu acredito que ele será explorado no segundo livro. Eu espero que, se o autor quiser mesmo seguir esse caminho, ele no mínimo desenvolva uma relação entre os protagonistas que não seja de rivalidade, como nesse primeiro livro.

03)   Achei a maior parte das personagens pouco desenvolvidas. O vilão ficou caricato demais – o que foi bom até certo ponto, mas mesmo assim... – e os protagonistas Citra e Rowan só foram mostrar a personalidade na metade do livro, e quando finalmente começamos a conhecê-los o livro acabou. Espero que o autor os desenvolva mais na continuação.

04)   Não achei sentido nos ceifadores poderem matar pessoas da forma que quiserem, fora o fato de que era conveniente para a narrativa. Entendo morte por veneno ou por eletrocutamento, que são mortes rápidas e indolores, mas cadê o sentido nos ceifadores poderem usar arco e flecha, espadas, artes marciais e lança chamas? Acho que tinha que ser uma morte padrão e indolor para todos... Pelo menos é assim que eu faria. Aliás, quanto custa um lança chamas? De onde vem os fundos dos ceifadores?

05)   Houveram poucas personagens femininas por que o autor teve uma brilhante ideia na qual não pensou aprofundadamente: fazer com que os Ceifadores tivessem nomes de cientistas e pensadores históricos. A gente tem apenas a Ceifadora Curie (Marie Curie, cientista que trabalhava com radioatividade) e a ceifadora Rand (Ayn Rand, fundadora do objetivismo, uma das correntes filosóficas mais ignoradas da história). É difícil procurar nomes femininos numa época em que mulheres não tinham permissão para estudar ou fazer qualquer coisa “masculina”. Acho que teria sido melhor se os ceifadores atendessem só pelo sobrenome, pois assim qualquer nome seria neutro. Eu queria ser a ceifadora Bakhtin, mas não posso por que tenho uma vagina...

Apesar desses questionamentos, eu amei o livro e só espero que o autor possa cobrir os buracos narrativos que citei nas continuações. Aliás, parece que o livro já está sendo adaptado para o cinema, então vamos ficar no aguardo!

E que venha o segundo livro, Thuderhead!




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