sábado, 2 de junho de 2012

Delírio


Toco as cerdas do pente enquanto a água do chuveiro cai quente sobre meus cabelos já molhados. O vapor sobe até o teto, desce novamente, embaça os espelhos e, possivelmente, a lente dos meus óculos, jazidos sobre a pia.
Enquanto passo meus dedos machucados pelas cerdas duras, ouço o som das gotas de água caindo no chão: um som molhado, pegajoso, como lágrimas que não secam, escorrendo dos meus olhos, pelo meu rosto, pelas paredes, inundando o que antes era uma mente sã.
Me imagino tocando uma harpa divina enquanto passo meus dedos pelas cerdas do pente. O som é oco e vazio, mas na minha mente ele tem um toque especial, melódico, melancólico. Nostálgico.
Enquanto toco minha harpa, o som de fundo da água quente caindo com força no chão frio enche o vazio, como violinos numa orquestra. O som criado escorre pelas paredes, juntando-se com as lágrimas.
Estamos no início de junho.
Não é verão, mas sinto meu coração pulsando quente no meu peito nu, sinto o sangue correndo e escorrendo pelas minhas veias, pelas paredes, junto com as lágrimas e a orquestra líquida. Meu sangue é quente e corre rapidamente, como se tivesse um destino.
Não é inverno, mas meus ossos tremem de frio, como uma garrafa de vidro suspensa no ar naquele momento que prece a queda, onde seus cacos irão se estilhaçar e voar em todas as direções. 
Não é primavera, mas os botões de sangue semelhantes a rosas vermelhas desabrocham no chão, rosados quando atingem a água no chão, espalhando suas pétalas sem perfume por todo o chão, levando suas pétalas pelo ralo, enquanto mais botões desabrocham dos meus dedos e escorrem até o chão, criando um jardim de rosas vermelhas que, quando regadas, viram rosas cor de rosa novamente.
A harpa não está mais sendo tocada, meus dedos estão sangrando demais pra isso. As gotas de sangue se estilhaçam no chão como se fossem cacos de vidro líquidos e vermelhos, botões de rosa que nunca irão ser beijadas por um pássaro, afogadas nas lágrimas que escorrem pelas paredes, dos meus olhos, misturando-se à água do chuveiro.
É outono e meus braços e pernas são como galhos secos, as pétalas secas espalhadas pelo chão, meus dedos sangram enquanto imploram por folhas novas e viscosas.

5 comentários:

  1. Oi Nath!
    Me conta.este texto é de tua autoria? Está muito lindo,um texto com muito sentimento.
    Tem meme para vc lá no blog.
    http://roubando-livros.blogspot.com.br/2012/06/memesou-divasou-blogueirasou-muito-mais.html
    Bjos Fabi

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  2. Obrigado, é de minha autoria sim!

    Adorei o meme viu! *---*

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  3. Yo vi que você gosta de animes ^^
    E eu gostei do vosso blog =)
    Também escrevo xD
    Passa no meu blog http://umomt.blogspot.com/ e ja sigo seu blog ok? =)

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  4. Nath, adorei seu texto. De verdade. Mostra um excelente domínio das palavras, descrição na medida certa, adorei. E um tema aparentemente simples, mas tão bem desenvolvido. Parabéns.

    http://porfavorsenhorita.blogspot.com

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  5. Obrigado! *-----------*

    Eu acho que repeti muitas vezes a palavra "chão", mas deve ter dado para entender o foco do texto...

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